domingo, 10 de fevereiro de 2008
Leia o cheiro
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
"Qual o plural de pneu?"
Foi o que perguntou uma moça bonita do BBB para o moço-que-se-diz-gay do BBB, depois de afirmar que gastava muito em revisão dos "pneis" do seu (dela) carro.
Não tem a menor importância o erro de linguagem da moça... E não tem a menor importância porque nem o erro dela, nem ela, nem o BBB têm o poder de alterar em nada a ordem das coisas, exceto mexer nos horários de quem se dispõe a espionar a vida alheia via satélite. Algumas pessoas até pagam por isso. Mas também não há mal nenhum em pagar por isso, uma vez que gosto e cu, cada um tem o seu. E já é difícil cada um cuidar do seu, né?
Pena que o programa, que se propôs como reality show, seja uma obra de ficção... e ruim.
Ruim porque não se assume como ficção. A obra de ficção se quer fazer passar por "realidade" é o começa da desgraça: a verdade inventada que se quer verdade resulta sempre em ficção de qualidade inferior.
O programa é chato e monótono. O cenário é chato e cafona. A fala das personagens é monocórdia, elementar como um grunhido de um animal acuado e cheira a papel redigido, mal tramado, mal decorado. Soa sempre com um viés hipócrita. Tente ouvir, só a fala deles, sem imagem. Vocês sentirão exatamente o que eu quis dizer.
Tudo soa a script. Eu acredito que de vez em quando vem até a ordem pelo ponto eletrônico:
"Senhores, hora de peidar! Porra, ninguém peida nessa casa? Agora peidem ou serão desclassificados!"
Sim, porque o peido tem o raro poder de levar rodinhas à ruína, o que seria muito bem-vindo no caso do BBB.
E tem gente que até acredita que as coisas lá seguem o ritmo imprevisto da vida!
A pior ficção é aquela que ser quer realidade; a pior realidade é aquela que se acredita passível de ser estruturada como ficção.
O máximo a que o BBB deve aspirar é ser uma obra de "ficação".
"Quem ficará com quem?"pode ser até uma pergunta digna de resposta. Mas isso já se perguntava no primeiro romance escrito na face da Terra...
Coisa velha e chata esse programa....
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Gol contra pode
Hoje faz 4 dias que eu não leio jornal. E chegam dois por dia. Todos vão virar sustentação de cocô e mijo da Meg.
Ler, não tenho lido. Nem na internet.
Nem vejo jornal de televisão. Quer dizer, vejo ao zapear.
E é desse zapear que se forma em minha mente um mosaico bem rústico. Quer dizer, um mosaico em primeiro instância, porque logo o amarelo que pontuava uma roupa alegre de alguém vira vermelho; o azul de uma possível São Paulo sem nuvens vai ficando cinza; o verde das poucas árvores que viram cenário de notícia também vão desbotando.
Aí a sensação de mosaico desaparece e fica apenas aquela cor pastosa de merda.
Parece que aspergiram cocô no mundo.
Será que um deus cruel tá cagando (literalmente) pra gente e, pior, SOBRE a gente?
Um dos capítulos mais geniais do Memórias póstumas de Brás Cubas é este, curtíssimo.
(Pra quem não leu, Marcela é a amante de Brás, prostituta e solteira. Virgília, a outra amante, casada com um amigo dele. Brás é o próprio narrador, que conta a história depois de morto. Bom, pelo menos ele não tem o menor constrangimento em ser natural, já que, morto, caga e anda pras nossas mesquinharias).
Eis o capítulo:
CAPÍTULO XLII / QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES
Outra coisa que também me parece metafísica é isto: Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda boa a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela, -- é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?
Eu tenho uma curiosidade bem grande a respeito do deus/ Deus(?) que deu o impulso inicial na bola que vem rebatendo em cima da gente o tempo todo.
Acho que não vai sair gol, não.
Só se for contra.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Será que vai ter Carnaval?
Hoje, 10 da manhã, Rádio CBN.
Alguém da Secretaria de Turismo da Prefeitura explicava as vantagens de passar o Carnaval em Sampa e, de preferência, em camarotes no Sambódromo:
"... e o público que for aos camarotes terá direito a leque, confete, serpentina, tradutor e intérprete e televisor com tela de LSD."
Isso mesmo, televisor com tela de LSD!
Gente, isso é tudo! A revolussão abçoluta! Viva o Carnaval de Ção Paulo!
Vai cer a cencasão!
Tela de LSD!!!!
Uau!!!
Não vejo falar nisso desde Woodstock (não, não, não é aquela que inventou a minissaia, aquela é outra. Woodstock é o festival, aquele).
Já imaginaram, aquela montanha de gente lambendo a tela do televisor até virar esqueleto?
E lambe de cá, lambe de lá e o povão só na miragem... Vendo bunda em lugar de peito, peito em lugar de pinto, pinto em lugar de... só de lamber a tela de LSD!
Televisor de LSD!
Moço, tem isso não. O cenhor trocou a letra.
Ubinam gentium sumus?
Carnaval em São Paulo... só ser for mesmo com LSD.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Deu a louca no calendário...
Dia de nossa senhora aparecida
Dia de finados
Dia da proclamação da república
Dia da consciência negra
Dia de nossa senhora negra
Dia de finados da república
Dia da consciência de nossa senhora
Dia da consciência, negra!
Dia de nossa senhora, aparecida!
Dia da proclamação de finados
Dia da república negra
Dia da proclamação da negra
Dia de nossa senhora da república
Dia da república, nossa!
Dia da consciência negra, senhora.
Dia de nossa senhora de finados
Dia da senhora negra
Dia da nossa república
Natal à vista!
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
A antialquimia: transformando ouro em bosta
Pois é... há algumas décadas surgiu o Faustão.
Era um gordo engraçado, inteligente, criativo, que comandava o Perdidos na Noite, na TV Record. Programa divertidíssimo, com espaço para a marginália da época.
Foi engordando cada vez mais e ficando cada vez mais sem graça...
Aliciado pela Globo, virou aquela meleca, mistura pastosa de showman com Camisaria Colombo.
Sem graça - mas se supondo um Chaplin -, sem vocabulário - mas se achando um erudito -, sem ginga - mas se considerando um Fred Astaire -, o pacote flácido navega ainda pelas tardes de domingo numa demonstração de que redundância é mesmo o que dá certo: "ô loco!", expressão roubada da fala tão espontânea do interiorano virou frase ridícula porque veiculada pela boquinha melada do Pantagruel global (vocês já notaram que ele tem os lábios sempre úmidos? Seria gloss ou é cuspe mesmo?); as pegadinhas de dez ou mais anos de idade fazem lembrar o início do VHS: show de chuvisco; a gozação nada sutil e extremamente deletéria em cima de gays... enfim, o esperado, repetido ad nauseam, para gáudio de um público que espera o mundo acabar em barranco para ter onde se encostar.
Pois bem: para chacoalhar a placidez domingueira, surgiu há pouco o Pânico na Tevê.
Oba! Esperanças no horizonte!
Criativos, os rapazes costumavam constranger famosos com suas brincadeiras nem sempre rigidamente pautadas pelo bom gosto, inventar situações efetivamente engraçadas... E dá-lhe criatividade! A dinâmica do programa, embora lembrando bastante aquele inaugurada por Chacrinha algumas décadas antes, era divertida, cheia de novidades verbais e visuais, o escracho era a cara do Brasil mais criativo... enfim, altíssima taxa de informação.
De repente - como ocorreu no último domingo - temos 4 minutos de programa e 5 de publicidade. Marcados no relógio, pois sim? O barco começou a naufragar... A puta se casou com o industrial, não admite mais que se fale em esquina, parou de chupar e virou dama. Agora só Igreja N.S. do Brasil pra ela. Ah, na missa das 11, que é a chique.
Não se trata de hipocritamente propagar a baboseira de que criatividade não combina com lucro. Artista tem mais é que ganhar bastante grana mesmo, especialmente se é criativo. Como jogador de futebol, que não se forma em escola.
Mas o que tá ocorrendo no Pânico, peraí!
Ninguém é trouxa! O programa perdeu a graça, perdeu a verve, perdeu o sentido, exatamente porque ganhou sentido no contexto escroto da mídia.
Comprometido com tantos anunciantes, certamente o raio de ação dos meninos antes tão criativos vai-se restringir. Se a esposa do dono da indústria X, anunciante, for uma cafona de marca e estiver na mira dos humoristas... não vai mais acontecer nada, né? Ou vai?
E a dondoca que detém poder sobre o industrial tal, que tem uma cota do programa? Vai ser objeto de gozação? Claro que não, seu João!
E a Globo... ninguém detona um possível futuro lar, né?
Além da liberdade restrita, o program virou uma grande vitrine de produtos - fato que já não mais suporta a dinâmica original do palco - e cai no dèja vu. Quer apostar que logo, logo o Pânico estará com novo visual, comportadíssimo, pra poder acomodar os anunciantes?
Uma pena? Sim, é um pena. Não porque eu os ame. Apenas não vejo agora a menor graça no programa. Já, já o público começa a desligar a televisão na hora do programa.
Tomara que o grupo entre em pânico. E não saia mais.
Bem feito.
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Mais um feriado
Um dia, aquele Papa-voador, o João de Deus, resolveu vir ao Brasil matar seu tédio vaticano, foi até o Santuário de Aparecida - coisa que o povo Brasil faz com a facilidade com que se diz "água" - e pronto: virou feriado. Eu tenho certeza de que ele comparou a cúpula da catedral com a da capela Sistina e revirou os olhinhos romanos, entediado com a cultura kitsch, sem saber que no Brasil o Juízo Final não fica no teto da capela, mas na rua, fora da igreja.
Enfim, não se sabe muito bem se 12 de outubro é comemoração da visita do Papa ao Brasil ou dia da Santa, aquela. Afinal, foi a primeira vez que a Santa foi honrada com a visita do Papa!
Uai, por que tanto espanto? Eu acho que o espanto se justificaria se a coisa fosse ao contrário: a Santa aparecendo pro papa e não este aparecendo pra aquela. Porque santo há de ser, hierarquicamente mais mano de Deus que Papa, né? Ou não? Sei lá, mistérios da fé.
E quem há de entender a hierarquia da Igreja Católica, esta gorda e decrépita senhora que dia-a-dia vem sendo currada pelas artimanhas e pirotecnias da Igreja Universal, esta sim repleta de fogos e festas?
Bem, o motivo do feriado não é certamente o Dia da Criança. Talvez seja o dia CONTRA a criança. Sim, porque o filhotinho de brasileiro já vai crescendo com a idéia de que feriado é bom especialmente pra emendar. E nem quer saber o porquê do feriado. Basta que o seja, pra encher o carro de tranqueira e pegar estrada. Aí o já esperado: bebida em excesso (não se vende cerveja em bares de estrada, mas quem precisa?), velocidade em excesso, onipotência em excesso... e pronto. Nego vira estatística ou se estropia todo. Tudo pra beber uma caipirinha à beira-mar... mirando os cocôs que singram os verdes mares bravios da minha terra natal, que também a prefeitura das cidades litorâneas não é de ferro pra ter de se preocupar com cocô de turista, ora tenha paciência.
Essa redundância cansa. Lembra Chico: "Todo ano eles fazem tudo sempre igual..."
Daqui a pouco tem ainda o feriado do Finados (agora virou moda visitar o túmulo do defuntão ou da defuntona - melhor esclarecer pra não me acusarem de preconceito de gênero - na véspera, botar a florzinha ali rapidinho pra viajar logo cedo no outro dia... "Deixamos papai em paz na sua campa, não é Kleverson? "), depois tem a proclamação e em seguida, o dia da consciência negra, em que Zumbi ressurge glorioso, sem qualquer trocadilho com a Glória Maria.
Feriado cansa. Quando passar o cansaço, vou fazer minha mala pra pegar a estrada.

