Leio agora, no meio da minha insônia, no portal Terra:
“Coronel que comandou invasão da PUC na ditadura militar morre aos 85”.
Não posso deixar de pensar: tantas outras coisas terá feito esse homem... terá feito filhos, terá tido netos, terá plantado uma jabuticabeira, terá dado uma ajuda financeira a um primo distante, terá, quem sabe, evitado a morte de um cachorro. Terá até justificado, intimamente, atitudes truculentas em nome de uma ideologia que, por alguma razão, abraçava com convicção.
Ao morrer, no entanto, o que ficou foi apenas e tão-somente o fato de ter comandado a invasão à reitoria de uma universidade. Simplesmente isso.
Não morreu o pai de fulano e fulana; o avô de fulano e fulana; o homem que plantou aquela jabuticabeira ali; o primo que ajudou outro primo em dificuldade. Tudo isso desapareceu e ficou do homem apenas o título de coronel e sua “façanha” maior: invadir uma universidade em nome de um governo ditatorial.
Não, eu não lembro como foi o Natal daquele ano de 1977. Eu não me lembro de quem desejou feliz ano novo a quem. Provavelmente houve um hiato na eterna luta ideológica, provavelmente não cristãos desejaram feliz Natal a cristãos e vice-versa. Provavelmente foi o mesmo clima de final de ano de sempre: os espíritos mais radicais se flexibilizam e tendem a se deixar levar -- ainda que por um minuto – pela noção racionalmente estruturada ou meramente intuída de solidariedade, respeito, honra, ética.
E, sobretudo, pela alegria.
A alegria meio irresponsável que permite sair mais cedo do trabalho, que permite beber e comer um pouco mais, que permite dar uma piscadela pra vida como que dizendo “ei, vida, estou te levando na boa”.
Mesmo para quem carrega uma cruz mais pesada, é comum que essa vibração leve a repousar por alguns minutos o instrumento de trabalho e a cantar, a desejar felicidade ao próximo, a repetir um ritual de todo fundamental, pois necessitamos de algum luxo e esse luxo pode ser apenas uma cor ou uma nota, como já disse alguém.
Foi assim em 1977, ano em que o Coronel Erasmo Dias comandou a invasão à PUC, e foi assim também neste final de 2009. Para quase todo mundo, inclusive alguns garis que desejaram, pela televisão, um ano feliz para todos.
Eu me lembro da invasão da PUC. Eu me lembro do coronel Erasmo Dias. O tempo desbastou a imagem dele, reduzindo-a apenas a um invasor de universidades. Foi assim que a história o marcou.
Talvez eu não esteja aqui para lembrar, mas tenho certeza de que a morte do cidadão Bóris Casoy será noticiada como a de um ser cuja dignidade desmoronou de todo ao tripudiar sobre aqueles trabalhadores que ousaram desejar feliz ano novo ao público e mereceram jornalista Bóris Casoy este brinde de final de ano:
“-- Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras... dois lixeiros... o mais baixo da escala de trabalho!"
Mais do que as acusações de pertencer ao CCC, mais do que sua nítida vocação para a subserviência ao poder, mais do que seus olhinhos espertos de ratazana, a lembrança que ficará da existência inteira do sr. Casoy será, certamente, a do episódio dos garis.
E será uma lembrança que para sempre cheirará à mesma merda com que ele não hesitou em rotular a alegria legítima e a solidariedade espontânea do outro.
Que merda, não?
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
De tudo fica um pouco?
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
A publicidade brasileira no mar de merda
Há tempos observa-se que a publicidade brasileira, premiadíssima em Veneza e outros festivais importantes uma caralhada de vezes, virou um pastiche pouco criativo e chato, chato, chato. Intolerável mesmo, salvo raríssimas exceções.
Em tudo, a começar pela gritaria daqueles atorezinhos que trabalham pras Casas Bahia, impera
o "´já visto", o mau gosto, o tosco.
A Schin, com aquele monte de espirros e chiados, mais parece um comercial de remédio pra gripe do que de uma cerveja que se pretende (mas não é) boa.
Tudo muito ruim: a concepção, a execução, as personagens, o texto, a trilha sonora.
Aquela do pinguim retardado, que fica repetindo cem vezes o número 21, é de arrepiar o mais gelado dos esquimós. Arrepiar de horror, nunca de tesão. Tesão deve ser pegar aquele pinguim e passar uma faca Guinzu no pescocinho dele, pra ver se o bichinho se cala até o fim dos tempos.
A Tim resolveu apelar para o melaço ideológico e visual de "O pequeno príncipe" ao colocar no ar aquela menina sonsa que não tem nada de material (nem merece), mas tem amor demais, demais, demais... e é mais chata que a Malu Magalhães. Eita coisa monótona, meu Deus. Estimula as pessoas a se tornarem consumistas para não correrem o risco de ficarem tão idiotas quanto a personagem.
E entre goles de cerveja que descem quadrado a pinguins ventríloquos, vamos navegando na mesmice, na estupidez, no óbvio gritante e literalmente ensurdecedor.
Se antes ver televisão podia ser um prazer apenas por causa da criatividade de alguns comerciais (quem não se lembra.. Casas Pernambucanas, Varig, Mantas Parahiba...), hoje nem isso mais justifica ligar o seu tevê de LCD comprado em 10 vezes. Pra ver aquilo?
Melhor passear na floresta, com lobo e tudo correndo atrás.
Por onde andam os Neil Ferreiras da vida, hein?
sábado, 19 de abril de 2008
Merda? Uma questão de perspectiva, ora!
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Gol contra pode
Hoje faz 4 dias que eu não leio jornal. E chegam dois por dia. Todos vão virar sustentação de cocô e mijo da Meg.
Ler, não tenho lido. Nem na internet.
Nem vejo jornal de televisão. Quer dizer, vejo ao zapear.
E é desse zapear que se forma em minha mente um mosaico bem rústico. Quer dizer, um mosaico em primeiro instância, porque logo o amarelo que pontuava uma roupa alegre de alguém vira vermelho; o azul de uma possível São Paulo sem nuvens vai ficando cinza; o verde das poucas árvores que viram cenário de notícia também vão desbotando.
Aí a sensação de mosaico desaparece e fica apenas aquela cor pastosa de merda.
Parece que aspergiram cocô no mundo.
Será que um deus cruel tá cagando (literalmente) pra gente e, pior, SOBRE a gente?
Um dos capítulos mais geniais do Memórias póstumas de Brás Cubas é este, curtíssimo.
(Pra quem não leu, Marcela é a amante de Brás, prostituta e solteira. Virgília, a outra amante, casada com um amigo dele. Brás é o próprio narrador, que conta a história depois de morto. Bom, pelo menos ele não tem o menor constrangimento em ser natural, já que, morto, caga e anda pras nossas mesquinharias).
Eis o capítulo:
CAPÍTULO XLII / QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES
Outra coisa que também me parece metafísica é isto: Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda boa a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela, -- é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?
Eu tenho uma curiosidade bem grande a respeito do deus/ Deus(?) que deu o impulso inicial na bola que vem rebatendo em cima da gente o tempo todo.
Acho que não vai sair gol, não.
Só se for contra.

