Nem sendo atirada de um sexto andar, a garota tem o descanso que mereceria caso não pertencesse a uma família de classe média, não fosse branca, não tivesse madrasta, não surgisse providencialmente para preencher os buracos deixados na imprensa pela mesmice que assola o país. Buracos iguais aos da rede pelos quais o corpo voou como o de uma Ismália contemporânea, sem a loucura daquela.
Abriu-se a brecha e jogou-se a menina na vala, mas não para descansar... para apodrecer viva por conta de tanta exposição patrocinada por uma mídia refinadamente sádica. Não se sabe indicar a pior, mas sem dúvida a emissoa mais cruel foi a Record, que no dia da "reconstituição" do crime transmitiu tudo em ritmo de partida de futebol.
O jornalista, um minigalvãobueno, insistia o tempo todo que o gol seria marcado logo, ou seja, que o boneco, símile do corpo da menina, seria atirado "a qualquer momento". E com esse bordão, dito no ritmo de quem transmite passes de Pelé, ele segurou a audiência por umas 4 horas.
Até que foi marcado o gol: o corpo foi "lançado", embora com amarras, do sexto andar do prédio.
Preenchida em seu vazio dominical pelo descomunal pênis da crueldade, do desrespeito, da sede de audiência, a platéia foi penetrada aos poucos e deve ter gozado muito quando, finalmente, a Isabela-boneco foi jogada pelo buraco da rede.
Só faltou o grito de gol.
sábado, 3 de maio de 2008
Isabela, a menina que não deixam morrer
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Gol contra pode
Hoje faz 4 dias que eu não leio jornal. E chegam dois por dia. Todos vão virar sustentação de cocô e mijo da Meg.
Ler, não tenho lido. Nem na internet.
Nem vejo jornal de televisão. Quer dizer, vejo ao zapear.
E é desse zapear que se forma em minha mente um mosaico bem rústico. Quer dizer, um mosaico em primeiro instância, porque logo o amarelo que pontuava uma roupa alegre de alguém vira vermelho; o azul de uma possível São Paulo sem nuvens vai ficando cinza; o verde das poucas árvores que viram cenário de notícia também vão desbotando.
Aí a sensação de mosaico desaparece e fica apenas aquela cor pastosa de merda.
Parece que aspergiram cocô no mundo.
Será que um deus cruel tá cagando (literalmente) pra gente e, pior, SOBRE a gente?
Um dos capítulos mais geniais do Memórias póstumas de Brás Cubas é este, curtíssimo.
(Pra quem não leu, Marcela é a amante de Brás, prostituta e solteira. Virgília, a outra amante, casada com um amigo dele. Brás é o próprio narrador, que conta a história depois de morto. Bom, pelo menos ele não tem o menor constrangimento em ser natural, já que, morto, caga e anda pras nossas mesquinharias).
Eis o capítulo:
CAPÍTULO XLII / QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES
Outra coisa que também me parece metafísica é isto: Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda boa a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela, -- é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?
Eu tenho uma curiosidade bem grande a respeito do deus/ Deus(?) que deu o impulso inicial na bola que vem rebatendo em cima da gente o tempo todo.
Acho que não vai sair gol, não.
Só se for contra.
